13.5.09

PÉROLAS DE JORGE JESUS


Ontem na rua, à porta do emprego, deram-me um exemplar do novo jornal i. Li-o mais tarde em casa de fio a pavio. Jornal interessante. Momento sublime: nas últimas páginas, na secção desporto, e a propósito da eventual ida de Jorge Jesus para o SLB, o jornalista Pedro Candeias, autor da peça, decide recordar algumas das melhores pérolas do actual treinador do Braga. São três e eu ainda me lembrava de duas delas. Ora então cá vai:
1ª - "Quero aproveitar para dedicar esta vitória a todos os motocards da Amadora que vieram até aqui"
2ª - "Não respondo a essa pergunta porque essa é uma questão do forno interno do clube"
3ª - "Os estrangeiros não são problema. Estamos a tratar do processo de neutralização"
Não se riam. Isto é arte, caros amigos! Muito bom...

11.5.09

GRANDES MÚSICAS (1)

Não consigo parar de ouvir isto... são irlandeses!

10.5.09

GRANDES CENAS (1)

Um demolidor abrir de coração (Marlon Brando, em Há Lodo no Cais, 1954).

THE AVIATOR*



CITIZEN HUGHES


The Aviator, o novo filme de Martin Scorsese, foca-se na vida de Howard Hughes (1905-1976), um americano milionário, excêntrico, realizador e produtor de filmes, e, mais ainda, um dos maiores génios da aeronáutica do século XX. Por ironia, sendo o filme sobre um aviador, ele representa também (como o próprio já se encarregou de confirmar) o último voo de Scorsese para o Oscar. Quanto à obra em si, The Aviator tenta retomar o biopic na sua melhor tradição, o mesmo é dizer, e em termos paradigmáticos, tenta construir-se (penso poder dizê-lo) na esteira de Citizen Kane (1941). Mas, claro está (e não fosse este um filme de Scorsese), tudo feito com virtuosismo, isto é, numa síntese entre o aproveitamento do que há de melhor em termos de Escola, e o toque pessoal de Scorsese, que sempre inova, rasga, impressiona.

O filme tem, de facto, notórias semelhanças com a mais emblemática obra de Orson Welles. O que, sublinhe-se, em nada o prejudica, antes pelo contrário. E a grande questão é esta: terão sido Scorsese e The Aviator dignos de suceder a Welles e Citizen Kane? Penso sinceramente que sim. Em The Aviator, tudo está pensado para tal: desde a escolha da personagem a biografar (Scorsese sabia que para um grande biopic, uma grande personagem, e Howard Hughes preenche o tipo), passando pelos tópicos centrais do filme (génio - doença - solidão), até à excelência da realização (Scorsese, tal como Welles, foi, é, e sempre será um inovador do e no seu tempo).

O Aviador, como se acaba de referir, gira em torno dum triângulo temático, a saber: o génio, a doença, e a solidão. Pergunte-se se isto tudo é compatível com a felicidade, e temos a chave do filme. Mais concretamente, há que analisar duas dualidades fundamentais do filme: uma interior - a dualidade em Hughes entre o génio (ou, mais simplesmente, o homem) e a doença, e outra exterior - a dualidade entre Hughes e o mundo que o rodeia. Quanto à primeira, não tenho dúvidas em afirmar que vence o génio, vence o homem, vence Howard Hughes, apesar da doença. E no que toca este aspecto, há dois sinais esclarecedores no filme: um primeiro (necessariamente ligado ao homem) em que Hughes, apesar da doença, consegue amar, consegue, no fundo, alcançar essa "fusão" sentimental que espelha o amor (patente na partilha da sua garrafa de leite com Katharine Hepburn, gesto que, no contexto do filme e da personalidade de Hughes, adquire um simbolismo decisivo); e, segundo sinal (relativo ao génio), em que Hughes, apesar da doença, consegue ficar na história da aviação (quiçá mesmo na história americana), consegue ser O Aviador: a perseverança demonstrada em fazer o Hércules levantar voo é aqui também ela um exemplo decisivo, pois mais do que uma prova dada ao mundo exterior, representa sobretudo o vencer de um desafio de Hughes com ele próprio. E quanto à segunda dualidade (exterior), é aqui que mais nos lembramos da personagem de Charles Foster Kane, pois o percurso de Hughes (neste aspecto) quase que se diria idêntico ao daquele. Com efeito, e funcionando como um contrapeso à vitória do génio/homem sobre a doença, a relação de Hughes com o mundo que o rodeia pauta-se por uma infelicidade extrema, uma constante falta de comunicação, mesmo de integração humana. Tal como Kane, Hughes tem a infância sempre (anormalmente) presente - o sabonete, herança simbólica de sua mâe, "entranhado" no bolso, quase que representa, ao estilo de Pessoa, o passado (leia-se infância) roubado na algibeira...

Em síntese, este último filme de Scorsese aborda, com um realismo impressionante (a fazer lembrar Leone...), a genialidade humana e a loucura (como podendo ser, e muitas vezes são, duas faces da mesma moeda), a falta de integração dum Eu (Hughes) com o mundo que o rodeia, a sua incapacidade crónica de ser feliz com os outros, enfim, a solidão e a evocação constante da infância como única forma de a combater.
*Texto escrito em 2005 no meu anterior blogue Renascer.

9.5.09

ISTO...

... era o que eu gostava de saber fazer com uma bola de futebol!

3.5.09

GRANDES FRASES (3)

"Uma grande alma distingue-se por desprezar a grandeza e por preferir a justa medida das coisas aos excessos", Séneca.

BERTRAND RUSSELL E A CRISE DAS RELAÇÕES HUMANAS

"Os obstáculos psicológicos e sociais que se opõem ao desabrochar da afeição recíproca são prejuízos graves de que o mundo sempre sofreu e sofre ainda. As pessoas são lentas a dar admiração a outras, com receio de que seja mal empregada; são também lentas a dar provas de afeição com medo de virem a sofrer por causa das pessoas a quem as dêem ou com receio da censura do mundo. A prudência é-lhes imposta não só em nome da moral, mas também em nome da sabedoria humana, e daí resulta que a generosidade e o espírito de aventura são desencorajados no que respeita à afeição. (...) Cada um procura não se abandonar, cada um conserva o seu isolamento fundamental, cada um continua intacto e portanto estéril. Em tais experiências não há valor essencial."

Não resisti a transcrever esta magnífica passagem dum livro de B. Russell (a saber, The Conquest of Hapiness) não só, antes de mais, pela genial capacidade de reflexão filosófico-sociológica demonstrada, mas também pela impressionante actualidade do assunto em análise. Aliás, tenho para mim que dificilmente outro tema, no plano das relações humanas, tenha actualmente tanta importância como este. É pena é que seja pelas piores razões.

De facto, confesso que o individualismo extremo por que as pessoas hoje em dia pautam a sua vida afectiva é um dos tópicos sobre os quais mais me apetece escrever. Creio que vivemos mesmo na era do isolacionismo afectivo, em que é um imperativo (ainda que inconsciente) desvalorizar o outro, desprezar o convívio enriquecedor, e, mais grave de tudo, agir interessadamente (ou, ao invés, haver uma incapacidade total de agir para com o outro desinteressadamente). Vivemos numa época em que se faz a mais mesquinha auto-exaltação do ego, sem que isso represente forma alguma de auto-estima, mas antes uma pobreza afectiva e emocional que nos torna civilizacional e culturalmente mais pobres. E, claro, dificulta muito a felicidade. Mas, como diz o Carlos Amaral Dias, talvez isso (felicidade) seja só coisa de besouros...